Lesões medulares em acidentes por mergulho

Caracterização das lesões

De todas as vítimas de Acidentes por Mergulho internadas em unidades de tratamento em decorrência de uma lesão medular, as tetraplegias são responsáveis por 95,9% do total de casos registrados de lesão medular, que são classificadas, predominantemente, como lesões medulares completas (ASIA A = 56,2% dos casos), com danos neurológicos e motores correspondentes à 5ª vértebra cervical (C5).

A literatura internacional é consensual ao apresentar as lesões medulares cervicais completas, com danos neurológico e motor concentrados na vértebra C5, como o padrão de lesão dos Acidentes por Mergulho, cujas conseqüências levam as vítimas a procurarem atendimento médico.

A biomecânica das lesões medulares em acidentes por mergulho

Devido à sua estrutura biomecânica, a coluna cervical é mais vulnerável ao trauma do que as outras regiões da coluna vertebral. A grande maioria dos que sobrevivem às lesões medulares ao nível da coluna cervical é atingida abaixo da primeira e da segunda vértebras (C1 e C2).

Isso se deve, em grande parte, a dois fatores básicos. O canal vertebral, por onde passa a medula, é bastante largo na junção crânio-vertebral, com a medula ocupando apenas 50% do espaço disponível, o que possibilita, no trauma, que os ossos fragmentados ou desconjuntados tenham boa chance de ocupar os espaços vazios, sem atingir necessariamente a medula. Por outro lado, quando a medula é atingida a esses níveis a chance de sobrevivência é reduzida, pois as lesões completas à altura dessas vértebras interrompem a enervação do diafragma.

Nesses casos, a ausência de socorro apropriado imediato inviabiliza, na maioria das vezes, a chance de sobrevivência, devido a falência respiratória imediata.

Em geral, as forças que costumam causar lesão na coluna cervical são resultantes de flexões violentas e rápidas no pescoço. A biomecânica da lesão medular por mergulho combina, normalmente, compressão vertical e hiperflexão da coluna cervical. Ou seja, a cabeça do indivíduo, ao atingir o chão da piscina ou o fundo do leito de um rio, por exemplo, recebe o peso do corpo, absorvendo o impacto que causa o dano. Segue-se ao impacto da cabeça, a brusca flexão do pescoço, produzindo fratura ou deslocamento de vértebra cervical, o que comumente resulta em trauma da medula espinhal.



O predomínio das lesões adquiridas em virtude de mergulho em águas rasas, ou seja, em função de impactos do corpo contra o fundo do local do mergulho, coaduna-se com a forma mais comum de biomecânica dos Acidentes por Mergulho: compressão e hiperflexão da coluna cervical. Em 88,6% dos casos, a cabeça é a principal e primeira região do corpo a sofrer o impacto e ferir o paciente.

Os Acidentes por Mergulho caracterizaram-se por ocorrer, predominantemente, em rios. Somados, os acidentes ocorridos em rios, lagos, cachoeiras e praias concentram no meio natural a maioria dos casos.
O local em que ocorre o acidente talvez seja a única variável de caracterização do Acidente por Mergulho que difere em função da localidade – país ou região geográfica  investigada.

O Brasil dispõe de uma longa faixa litorânea, paralela a um espaço interior muito grande, banhado por um também amplo conjunto de bacias hidrográficas, com muitos rios, de volumes de água variados entre si e variantes conforme as estações do ano. O Brasil possui, ainda, um clima predominantemente tropical, marcado por elevadas temperaturas na maior parte do país e em mais da metade do ano. Isso tudo sugere a existência de um importante potencial de exposição dos indivíduos a locais de mergulho em meio natural, dado que esses são, ao mesmo tempo, abundantes, atrativos, em função das características climáticas nacionais, e, em geral, de acesso irrestrito.

Esse potencial de exposição aos locais de mergulho em meio natural no Brasil amplia-se quando comparado à exposição da população às piscinas. O uso de piscinas é, em geral, restrito a certos segmentos sociais que possuem poder aquisitivo suficiente para possuir uma piscina doméstica ou em condomínio residencial, ou pagar por sua associação em clubes ou pelo uso de piscinas em escolas ou academias de natação. Essa seleção sócio-econômica, portanto, limita ainda mais a exposição das pessoas às piscinas, ampliando, por exclusão, sua exposição comparativa aos locais de mergulho em meio natural.

Os Acidentes por Mergulho apresentam-se como eventos típicos do verão: eles se concentraram nos três meses mais quentes do ano dezembro, janeiro e fevereiro. Isso sugere que esses acidentes possuem uma sazonalidade relacionada ao clima, sendo mais comuns quanto maior a temperatura média do período. Algumas pesquisas que investigaram a sazonalidade de acidentes por mergulho apontam o verão como a época mais propícia para a ocorrência desses eventos, havendo, inclusive, quem denomine esse tipo de acidente  como uma "epidemia de verão".

Os relatos das situações em que ocorrem os acidentes apresentam nas como um amplo leque que variou de simples mergulhos e banhos com amigos e/ou parentes a situações festivas (tais como churrascos ou comemorações), passando ainda por pescarias, passeios de barco e viagens ou excursões. A companhia e a influência de amigos ou familiares para a realização de brincadeiras e performances nos saltos, familiaridade com o local do mergulho e, conseqüentemente, a despreocupação com os riscos de quaisquer acidentes, as situações extraordinárias e excitantes, como viagens, passeios de barco, festas e comemorações e o consumo de bebida alcoólica, são alguns dos muitos elementos que, isolada ou conjuntamente, tendem a ampliar o espectro de descontração que marca os mergulhos em situações de lazer, reduzindo os cuidados com segurança e ampliando, por conseguinte, os riscos de acidentes.

A literatura de língua inglesa utiliza a expressão recreational swimmer para designar a vítima do acidente por mergulho. Essa expressão caracteriza com clareza a vítima típica desses acidentes, apontando para o fato de se tratar de acidentes que tendem a ocorrer com nadadores em atividade recreativa, nadadores ocasionais, amadores das águas, um tipo análogo ao que, no Brasil, denomina-se “peladeiro” quando se fala de futebol. Em outras palavras, trata-se não apenas de indivíduos em situação de lazer e descontração, mas também, de pessoas, em geral, sem o devido treinamento para o mergulho.

A despeito de ser uma atividade aparentemente simples, o mergulho requer uma técnica específica, que resulta de um tempo considerável de treinamento. Poucas pessoas, à exceção dos atletas de natação e saltos ornamentais, costumam dominar a técnica do mergulho, apesar de muitos acreditarem que essa é uma atividade fácil de se realizar e que, por isso, qualquer pessoa pode ter total controle sobre a performance em um mergulho. O mergulho de ponta é uma opção arriscada para todos os nadadores – em virtude da exposição da cabeça ao impacto com a água ou com algum objeto submerso – e especialmente perigosa para aqueles que não são devidamente treinados, na medida em que a falta de domínio sobre a aerodinâmica e a hidrodinâmica do mergulho, potencializam os riscos de lesão.



O inexperiente tende a deixar a borda ou o trampolim em um salto torto, desviando-se da direção que almejava e, com isso, ampliando os riscos de lesão, principalmente em locais com fundos irregulares, como em meio natural e em piscinas com partes rasas e fundas.



Uma pessoa que mergulha da borda de uma piscina de cerca de um metro de profundidade (as piscinas particulares não costumam exceder a 2m), por exemplo, tem pouco tempo para corrigir um mergulho mal sucedido ou mover os braços em uma posição que possa prover proteção à cabeça e ao pescoço. Nadadores não treinados, apesar de saltarem com os braços à frente da cabeça, geralmente mergulham com os braços abertos ou semiabertos, ou ainda, tendem a recolher os braços após atingirem a água, privando a cabeça da proteção que esses membros poderiam oferecer.

A maioria dos acidentes investigados ocorre em locais conhecidos pela vítima (67,1% dos casos registrados), ou seja, locais onde o paciente já havia estado antes do dia em que se acidentou. Esse dado coloca em questão a idéia de que apenas os lugares desconhecidos são perigosos para mergulho.
Os acidentes investigados caracterizam-se, também, por decorrerem de mergulhos voluntários, ou seja, saltos e não quedas ou empurrões.

Em rios, lagos ou praias, a maioria dos mergulhos (59,2% dos casos) se dá a partir de  barrancos, árvores, pedras ou da própria margem. Desses locais, a altura a partir da qual o mergulho ocorreu foi de, no máximo, 2 metros de altura (80,0% dos casos).

Mais do que o fruto de um risco voluntariamente assumido, o Acidente por Mergulho deve ser considerado como um acidente legítimo, produzido, em última instância, pela combinação entre falta de treinamento adequado (incluindo noções de segurança em meio aquático), descontração e desconhecimento da relação mergulho/lesão medular.

Não são apenas as vítimas que desconhecem a gravidade dos Acidentes por Mergulho. Em geral, as pessoas que prestam socorro às vítimas (quando não se tratam de socorristas especializados) também ignoram o fato de que um simples mergulho pode ser tão nocivo. Por acontecerem invariavelmente em situações de lazer, esses acidentes tendem a ocorrer na presença de amigos ou familiares, os quais possuem, no momento do acidente, uma função essencial no socorro à vítima, mesmo que, em geral, esse socorro só seja prestado quando a pessoa já se encontra praticamente afogada. Por que amigos ou familiares, logo pessoas muito próximas, tardam a aceitar que a vítima de um Acidente por Mergulho possa estar realmente se afogando?

Alguns elementos devem ser considerados na resposta a essa questão:

·  A pessoa que sofre um Acidente por Mergulho, salvo nos casos de quedas ou empurrões – uma minoria residual – saltou voluntariamente na água, sendo, portanto, imaginável que saiba minimamente nadar;

·         Como a maioria dos acidentes ocorre em águas rasas, as pessoas ao redor costumam ter real dificuldade em aceitar que uma pessoa que sabe minimamente nadar, porque saltou voluntariamente na água, possa estar se afogando em águas pouco profundas, nas quais, em muitos casos, já estava nadando antes do salto que provocou o acidente;

·         Por fim, a pessoa que sofre uma lesão medular por mergulho, em geral, perde imediatamente os movimentos dos braços e das pernas e seu corpo tende a boiar em decúbito ventral, com o rosto voltado para dentro da água. Essa posição costuma confundir as pessoas próximas, pois as faz pensar que a vítima está simulando um afogamento ou realizando alguma brincadeira em apnéia. Assim, o socorro costuma ser prestado no limite do afogamento, quando as pessoas próximas desconfiam do tempo que a vítima está voltada para a água sem respirar.

FFonte: Rede Sarah

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