Reação Postural de Equilíbrio

Verificando os trabalhos de Shumway-Cook e Woollacott (2003), Gallahue e Ozmun (2002), Levitt (2001), Bly (1994, 1997), Flehmig (2001), Shepherd (2002), Stokes (1998), Umphred (1994) a reação de equilíbrio pode ser definida como: a habilidade do indivíduo em manter a projeção do centro de gravidade dentro dos limites da base de sustentação, por meio da interação de diversas forças que agem sobre o corpo. Analisando a definição apresentada é importante esclarecer algumas palavras com base nos trabalhos de Hamil e Knutzen (2008), Okuno e Fratin (2003), Shumway-Cook e Woollacott (2003), Gallahue e Ozmun (2002), Hamill e Knutzen (1999).

1- centro de gravidade: é um ponto ao redor do qual todas as partículas da massa de um corpo estão igualmente distribuídas. Conforme a posição dos segmentos corporais se altera, sejam braços, pernas ou tronco, também muda o centro de gravidade do corpo. Este conhecimento de onde e como a força da gravidade age sobre o corpo é importante clinicamente para facilitar o movimento, alterar cargas de atividades, equilibrar os segmentos e impedir ou propiciar reações posturais.

2- limites da base de sustentação: o contato que o indivíduo tem com a estrutura estável que o sustenta, assim como o espaço correspondente a distância entre os contatos é considerado como base de sustentação ou polígono de sustentação. Ou seja, se um indivíduo estiver em pé, sua base de sustentação corresponde aos seus dois pés no chão, e o espaço entre eles. Os limites da base são linhas imaginárias que unem os pontos de contato formando uma representação gráfica (polígono) da base de sustentação.

3- forças que agem sobre o corpo: existem dois tipos de forças que agem sobre o corpo:

a. forças internas: são as forças produzidas por músculos ao se contraírem, resultantes da transformação de energia produzida pelo metabolismo muscular em energia cinética.
b. forças externas: as forças externas que agem sobre o corpo são:

i. Ação da gravidade: a gravidade (atração que a Terra exerce sobre os corpos) está constantemente atuando sobre o indivíduo, atraindo-o para o centro da terra. Desta forma, o indivíduo está, sempre, interagindo com a gravidade para se manter em uma postura ou realizar um movimento. Esta interação pode ser realizada a favor da ação da gravidade ou contra, dependendo do objetivo do movimento.

ii. Lei da ação e da reação: é a terceira lei de Newton e pode ser definida como: a toda ação corresponde uma reação igual e em sentido contrário. Durante as reações de equilíbrio, o ponto de sustentação do corpo no solo terá uma resposta contrária à força exercida sobre ele, o que influencia diretamente na resposta motora que o indivíduo apresentará para se movimentar ou manter a postura.

iii. Lei da inércia: foi apresentada por Newton em sua primeira lei da mecânica e pode ser definida como: Na ausência de uma força, um corpo em repouso permanece em repouso, e um corpo em movimento continua em movimento, numa linha reta e velocidade constante. Esta força, também, atua constantemente sobre o corpo do indivíduo e influencia a reação de equilíbrio. Quando se está parado em uma postura ou se modifica a direção de um movimento a inércia está atuando na reação de equilíbrio, induzindo o recrutamento de grupos musculares para propiciar uma resposta motora efetiva.

iv. Resistência suplementar: considera-se resistência suplementar todo objeto utilizado pelo indivíduo para facilitar ou dificultar uma postura ou um ato motor. Nas atividades que serão apresentadas, os materiais como rolo, bola, banco de terapia ou o próprio terapeuta estarão atuando como resistência suplementar, influenciando diretamente na reação de equilíbrio.

v. Atrito: pode-se definir como a existência de forças entre o corpo do indivíduo e da superfície de contato. A reação de equilíbrio, dependerá do atrito apresentado entre o material terapêutico ou a base de sustentação e a criança. Em todas as atividades que serão apresentadas o atrito poderá facilitar ou dificultar a posição e a movimentação da criança.

2.1 Fatores que influenciam na estabilidade do corpo: as reações de equilíbrio são as principais responsáveis pela estabilidade do corpo do indivíduo. Define-se estabilidade como: a propriedade de um corpo em manter o equilíbrio, após ou durante uma alteração em sua posição ou movimento em uma mesma base de sustentação. Devem-se considerar quatro fatores que influenciam diretamente na estabilidade do corpo do paciente durante a realização das atividades terapêuticas, tais como:

2.2.1 Localização da projeção do centro de gravidade na base de sustentação: quanto mais no centro da base de sustentação estiver a projeção do centro de gravidade, mais o corpo do indivíduo estará estável naquela posição e menos recrutamento e força muscular serão necessários para manter a postura. Sendo assim, quando o indivíduo esta na posição ortostática e realiza uma inclinação do seu corpo para frente, o centro de gravidade acompanhará o movimento, deslocando para frente à projeção na base de sustentação. Neste caso, o corpo estará com menos estabilidade e deverá realizar mais recrutamento da musculatura posterior, caso contrário perderá o equilíbrio.

Na figura 1, o paciente está em pé com a projeção do centro de gravidade no meio da base de sustentação. No entanto, na figura 2, inclinou o corpo para frente, deslocando a projeção do centro de gravidade, também, para frente da base de suporte. Neste caso, necessitará de maior recrutamento dos grupos musculares posteriores do tronco.

2.1.1 Tamanho da base de sustentação: Quanto maior a base de sustentação, mais estável o corpo do indivíduo estará. Para exemplificar, consideramos que quando o indivíduo permanece em pé com os dois pés afastados, a base de sustentação será maior do que se estivesse com os dois pés unidos, o que propicia mais estabilidade ao corpo.

2.1.2 Altura do centro de gravidade: Quanto mais baixo e perto da base de sustentação estiver o centro de gravidade, mais estável o indivíduo estará. Este princípio pode ser visto em indivíduos mais baixos na postura ortostática, já que estes terão o centro de gravidade mais perto da base de sustentação, o que possibilita mais estabilidade ao corpo em relação a indivíduos mais altos. Outro exemplo é que o indivíduo estará mais estável na postura ortostática se flexionar os joelhos, pois aproximará o centro de gravidade à base de sustentação.

2.2.4 Peso do corpo: o peso influencia diretamente na estabilidade do corpo, pessoas mais pesadas apresentam mais estabilidade nas diferentes posições.

Analisando os quatro fatores que influenciam na estabilidade conclui-se que:

• Para o indivíduo estar estável: a projeção do centro de gravidade deve estar no centro da base de sustentação; a base de sustentação deve ser a maior possível; o centro de gravidade deve estar perto da base de sustentação e o peso do corpo varia para cada pessoa. Para exemplificar, consideramos que a posição que promove maior estabilidade a uma pessoa é o decúbito dorsal (supino) com os membros superiores e inferiores afastados o máximo possível. Nesta posição a estabilidade é tão grande que:

- será difícil empurrar ou puxar uma pessoa nesta posição.
- a pessoa necessitará de pouco ou nenhum recrutamento muscular para se manter na posição. Em contrapartida, devido a grande estabilidade, precisará de um recrutamento muscular maior para mudar de posicionamento.

• Para o indivíduo estar instável: a projeção do centro de gravidade deve estar distante do centro da base de sustentação; a base de sustentação deve ser a menor possível; a altura do centro de gravidade deve estar distante da base de sustentação e o peso do corpo varia para cada pessoa.

Para exemplificar, consideramos que a posição que promove menos estabilidade a uma pessoa é a ortostática sobre a ponta de um só pé. Nesta posição a estabilidade é tão pequena que:

- será fácil empurrar ou puxar uma pessoa nesta posição, e ao menor toque o indivíduo perderá o equilíbrio.
- a pessoa necessitará de recrutamento muscular maior para se manter na posição.

Porém, terá facilidade para transferir-se, não necessitando de muita contração muscular.

2.3 Função: a reação de equilíbrio tem duas funções importantes:

• quando o indivíduo está parado em uma determinada posição, a reação de equilíbrio mantém a projeção do centro de gravidade o mais próximo possível do centro da base de sustentação, facilitando a manutenção da postura.
• quando o indivíduo realiza um movimento, a função da reação de equilíbrio é manter a projeção do centro de gravidade dentro dos limites estabelecidos pela base de suporte, caso a projeção saia do polígono da base de sustentação o indivíduo perde o equilíbrio naquela postura e necessita adquirir uma nova base de sustentação.

2.4 Influência das reações de equilíbrio nas atividades terapêuticas: as atividades terapêuticas que serão apresentadas enfatizam a utilização das reações de equilíbrio no atendimento terapêutico de crianças que apresentam alteração da postura e movimento.

Para tanto, existem duas formas de estimular a reação de equilíbrio:

Sem o deslocamento do centro de gravidade ou deslocamento mínimo: neste caso a criança utilizará a reação de equilíbrio para manter uma determinada postura, evitando o máximo possível o movimento do centro de gravidade.

Com deslocamento do centro de gravidade: neste caso a criança utilizará a reação de equilíbrio para realizar movimentos no meio ambiente. Caso o deslocamento seja pequeno, ou seja, próximo ao centro do limite de estabilidade, o indivíduo pode recrutar grupos musculares que possibilitem pouco movimento em relação a posição original.

Porém, se o deslocamento do centro de gravidade for mais acentuado, o indivíduo apresentará reação de equilíbrio que necessitarão de mais recrutamento muscular, inclusive com possível auxílio de movimento de segmentos (membros superiores ou inferiores), os quais se moveram para manter o equilíbrio.

Durante a prática clínica, observa-se algumas formas de estimular as reações de equilíbrio em crianças com alteração da postura e movimento:

- o terapeuta desloca o centro de gravidade da criança movimentando-a para frente, para os lados ou para trás. Para tanto deve utilizar um ponto de contato com o paciente, no qual consegue movimentar o centro de gravidade para várias direções.
- o terapeuta posiciona a criança em superfícies que propiciem instabilidade, deslocando seu centro de gravidade de acordo com o objetivo traçado. Nesta apostila, utiliza-se alguns materiais que propiciam tal instabilidade, no caso a bola terapêutica, o rolo, o banco com rolamento ou o próprio corpo do terapeuta.

- uma outra alternativa é o terapeuta induzir o paciente a deslocar seu centro de gravidade por meio de atividades funcionais. Neste caso, se propõe atividades voluntárias e intencionais, objetivando que a criança realize reações de equilíbrio para se movimentar em direção a um objeto e se posicionar e manter em uma postura estável para que os membros possam ser utilizados com maior precisão. 


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Ano IX - © Tânia Marchezin - Fisioterapeuta - Franca/SP

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