Terapia de contensão induzida no acidente vascular encefálico

A base histórica da terapia de contensão induzida (TCI) teve o seu início há mais de sete décadas. As pesquisas pré-clínicas iniciaram em primatas machos jovens e possui embasamento teórico pela superação da teoria do desuso (primatas voltavam a utilizar o membro superior afetado nas atividades cotidianas após o uso forçado deste membro durante duas semanas) (TAUB e USWATTE, 2003; TAUB et al., 2006; TOWER, 1940; KNAPP ET al., 1963).

A Terapia de Contensão Induzida (TCI) é também conhecida como Técnica de Restrição, uma nova terapêutica que propõe a recuperação da função do membro superior de pacientes com sequelas motoras em lesões encefálicas (WOLF et al., 2002). Esta terapia baseia-se no fundamento em que a maior exploração do movimento em membro superior afetado irá favorecer o aprendizado motor, por meio da restrição do membro sadio (SOUZA, 2008). Desta forma, são características dessa técnica de tratamento, o uso máximo do membro afetado, a inserção do sujeito em atividades funcionais e cotidianas e a restrição do membro superior saudável nas tarefas do dia a dia (GAMBA; CRUZ, 2011).

Esta terapia depende de 3 pilares que em conjunto, formam a TCI, são eles:

1) Treino de tarefa orientada intensivo com repetição do membro superior parético 3 horas por dia, por 2 semanas consecutivas (shaping e task pratice);

 2) Restrição do membro superior não parético por meio de uma luva durante 90% das horas acordado no período do tratamento;

3) Aplicação de um conjunto de métodos comportamentais para reforço de adesão destinado a transferir os ganhos feitos no ambiente clínico para o mundo real do paciente (MORRIS et al., 2006).

De acordo com Diniz e Abranches (2003), o protocolo da TCI determina primeiramente a restrição da extremidade superior não acometida por meio de um dispositivo semelhante a uma luva durante 90% do seu dia, para que o paciente seja obrigado a realizar suas atividades de vida diária com o membro afetado pelo AVE, após essa fase, inicia-se o treinamento diário da extremidade plégica ou parética por aproximadamente 6 horas por dia. O protocolo completo preconiza 14 dias consecutivos de tratamento.

Na fase aguda do Acidente Vascular Encefálico (AVE) que dura aproximadamente 2 semanas e na fase subaguda com duração de até 6 meses (KIRAN, 2012) o uso da TCI é de grande valor, pois pode prevenir o não-uso aprendido. Por outro lado Schallert apud Liepert (2000) assegura que o uso precoce da TCI pode ser prejudicial à recuperação do paciente.

Em relação aos pacientes que devem ser submetidos à TCI, existem desacordos entre alguns estudos, entretanto todos asseguram a grande eficácia da técnica em pacientes na fase crônica (LIEPERT, 2000).

Os últimos estudos demonstram que a TCI é um tratamento potente para aprimorar a movimentação funcional do membro hemiplégico, do indivíduo com sequelas de AVE (MILTIMER et al., 1999). Em outro estudo, realizado antes e após o tratamento com TCI revelou, por meio de ressonância magnética, mudanças nas estruturas cerebrais, na região cinzenta das áreas sensórias e motoras do cérebro, acompanhadas pela melhora da função motora espontânea do membro com hemiparesia. Também foram identificadas mudanças no hipocampo que é uma estrutura que se relaciona com o processo de aprendizagem e memória (GAUTHIER et al., 2008).

Sobre as maneiras que direcionam para uma melhora funcional do membro plégico ou parético por meio da TCI, ambos os autores, Diniz e Abranches (2003) e Liepert (2000), concordam com duas maneiras possíveis acreditar em uma reorganização cortical, e outra que explica a superação do “não uso aprendido”, a qual se desenvolve nos estágios iniciais pós AVE, caracterizada pelo aprendizado do paciente em não usar o membro superior pela dificuldade de movimentá-lo (DINIZ; ABRANCHES, 2003; LIEPERT , 2000).

Liepert (2000) acredita que a TCI pode conduzir a uma neuroplasticidade de infinitas formas ainda não definidas, como a formação de várias conexões anatômicas por meio de brotamentos neuronais; aumento da eficácia sináptica das conexões existentes ou, ainda, ao recrutamento de um grande número de neurônios na inervação da extremidade plégica/parética adjacentes àqueles envolvidos antes da lesão central.

Após a exposição do contexto da TCI o treinamento motor é fonte de desenvolvimento cerebral, desde que adequadamente realizado, pois pode levar a neuroplasticidade em áreas motoras e somatossensoriais (DINIZ; ABRANCHES, 2003).

Portanto, os riscos e benefícios da TCI na fase aguda (2 semanas) ainda devem ser descobertos, enquanto sua eficácia na fase crônica vem sendo comprovada em todos os estudos realizados (BROL et al., 2009).

Partindo da realidade de que o Acidente Vascular Encefálico (AVE) é uma doença altamente incidente no mundo atual, os recentes estudos utilizam esta técnica para esclarecer as possíveis teorias de recuperação neurológica, possibilitando estender o período de recuperação dos pacientes com AVE para estágios crônicos (WOLF et al., 1989; TAUB et al., 1993; MILTNER et al., 1999; WOLF et al., 2002), muito além dos primeiros 12 meses. (PARKER et al, 1986; JORGENSEN et al., 1995).

Há uma estimativa de que pelo menos 50% da população de pacientes com AVE possam obter melhora funcional utilizando esta técnica (MILTNER et al., 1999).


Autores: Mariana Rodrigues Gaspar Corrêa e Marlon Silva

1 Comentário:

Unknown disse...

Muito bom!

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